Efeito recomeço: porque queremos mudar nossa vida com o Ano-Novo
A virada do ano cria uma separação psicológica, em que deixamos todos os nossos erros no passado e podemos começar de novo, melhores e mais determinados.

É só chegar o final do ano que aparece aquele chato para te lembrar que nada vai realmente mudar, que o tempo é uma construção social, que somos apenas primatas comemorando mais uma volta em torno do Sol e toda aquela ladainha niilista.
Detesto concordar com gente chata, mas, nesse caso, ele até que tem razão. De fato, a virada do ano é só um símbolo – na prática, é um dia como qualquer outro. Não há nada de novo nessas datas, além dos dígitos novos no ano.
Se esse é o caso, por que sentimos uma vontade irrefreável de mudar nossas vidas, de começar de novo, de fazer muito bem feito, logo nessa data, que deveria ser igual a todas as outras? Apesar de, na realidade, ela não ter nada de diferente, acontece que nosso cérebro atribui a ela um significado especial.
Alguns cientistas tentam estudar justamente como a nossa percepção de passagem de tempo afeta nossa motivação. Eles acreditam que certos marcos temporais estimulam o cumprimento de objetivos por sinalizarem novos começos ou o início de novos períodos.
O nome disso é Efeito de Novo Começo (“Fresh Start Effect”). Essas datas que demarcam a passagem do tempo criam a impressão de um início de ciclo. Com isso, também sentimos que temos a chance de recomeçar.
A noção de que novos começos são possíveis e oferecem aos indivíduos uma oportunidade de se aprimorarem já é algo muito culturalmente difundido. Conscientemente ou não, aumentamos nossas aspirações em dias que “contrastam fortemente com o fluxo aparentemente interminável de ocorrências triviais e comuns” – o próprio Ano-Novo, um aniversário, o começo de um novo semestre na faculdade ou uma segunda-feira.
O início do ano acaba virando um momento em que milhões de pessoas se enchem de um vigor atípico para cumprir seus objetivos, como perder peso, comer de forma mais saudável, parar de fumar, obter uma educação melhor e economizar mais dinheiro.
Algumas pesquisas apontam que os marcos temporais funcionam como barreiras psicológicas, separando a percepção que temos de nós mesmos em passado, presente e futuro. Quanto mais nitidamente um marco temporal marca o início de um novo período de tempo, maior a distância psicológica que ele criará entre seu eu do passado e atual.
Pesquisadores teorizam que essa separação psicológica bem delimitada permite que você atribua traços negativos e falhas à sua versão passada – mantendo uma imagem positiva do seu eu atual. É como se você dissesse “isso era um defeito do meu antigo eu, essa nova versão é diferente”. Esses marcos temporais podem ajudar as pessoas a deixarem seus erros no passado e elevarem sua autoimagem e confiança.
Em um estudo publicado na revista Psychological Science, cientistas argumentam que se sentir separado das imperfeições passadas deve estimular vários processos psicológicos para te dar o empurrão necessário para cumprir suas metas.
“Primeiro, sentir-se desconectado de fracassos passados pode aumentar a crença na capacidade de executar planos e atingir metas. Segundo, as pessoas preferem se comportar consistentemente com suas autopercepções”, escrevem em seu artigo. “Assim, sentir-se menos manchado pelos fracassos passados pode motivar as pessoas a se comportarem consistentemente com sua nova autovisão positiva e agir em metas de autoaperfeiçoamento”.
Então, tente entrar na onda dos fenômenos psicológicos do Ano-Novo e abraçar o efeito de novo começo. Ele pode ser o gás necessário para que você se sinta mais motivado a botar suas metas em prática. Ano-Novo, vida nova!