Por que o novo assusta tanto?

Uma reflexão científica sobre o medo e a mudança e o que nos leva a gostar das zonas de conforto

Por Pedro Shiozawa e Daniela Diniz, em colaboração especial com a Você S/A*
21 dez 2024, 12h00
Montagem de uma mulher caminhando. No caminho percorrido podemos ver uma escada vindo de um buraco.
 (DNY59/Getty Images)
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E

stamos chegando a mais um final de ano e a temporada de análises está aberta. Se por um lado, o ano de 2024 foi marcado por evoluções tecnológicas e avanços na ciência, por outro, ele também registrou alguns retrocessos no comportamento humano, resultando em tomadas de decisões equivocadas no ambiente corporativo.

O exemplo mais tangível desse “estica e puxa” é o retorno de uma gestão “comando e controle”, que vem obrigando funcionários de diferentes setores e localidades a voltar a trabalhar num modelo 100% presencial ou permitindo uma “flexibilidade” vigiada – por mais paradoxal que isso possa parecer. Mas esse não é o único exemplo e nem será o último.

Desde que o mundo é mundo, o ser humano reage às inovações e seus desdobramentos de duas formas: uma parte fica até orgulhosa e satisfeita com os avanços de nossa espécie, outra parte grita do íntimo do nosso cérebro e nos amedronta frente ao novo. Será que isso vai dar certo mesmo? Será que não vai ser pior para mim? Será que isso é seguro? Será que não é uma moda passageira?

Afinal, aprendemos desde pequenos, ouvindo de geração em geração, que o “seguro morreu de velho”, ou seja, aqueles que evitam riscos e são mais conservadores em suas ações têm mais chances de escapar dos problemas e viver uma vida longa. Vale para pessoas e vale para os negócios. Será?

Sem querer entrar no mérito da relevância do ditado, vamos explicar por que nós respondemos dessa forma ao novo e como essa reação – puramente humana – pode atrapalhar os avanços dos negócios e da sociedade.

Fatores biológicos

O ser humano aprendeu no decorrer de nossa evolução a buscar recompensas previsíveis, o que, quimicamente falando, faz com que se ative o sistema de recompensa cerebral.

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Estudos realizados pela Harvard Medical School indicam que a familiaridade libera dopamina, o neurotransmissor do prazer, em regiões cerebrais específicas como o núcleo accumbens. Esse mecanismo reforça padrões de comportamento já conhecidos e pode ser um obstáculo à inovação, que muitas vezes envolve o inesperado.

Outra questão está ligada à eficiência de nossas mentes. Nosso sistema nervoso é como o “motor” que nos move todos os dias, consumindo muita energia para manter tudo funcionando. O cérebro, especificamente, é um dos órgãos mais exigentes em termos de combustível – sendo responsável por consumir cerca de 20% de toda a nossa energia calórica.

Para economizar essa energia, processos automáticos e rotinas entram em cena, reduzindo a atividade do córtex pré-frontal, a área responsável pelas decisões mais complexas.

No entanto, quando surge algo novo, nos lançando para fora da zona de conforto, o esforço cognitivo aumenta, assim como o gasto de energia, o que pode gerar uma certa resistência interna.

O cérebro, especificamente, é um dos órgãos mais exigentes em termos de combustível – sendo responsável por consumir cerca de 20% de toda a nossa energia calórica.

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É nessa hora, por exemplo, que quando surge uma nova oportunidade de carreira, a empresa adquire novas tecnologias, funções são remodeladas ou até uma nova liderança assume a gestão, a nossa primeira reação é ignorar, desdenhar, desconfiar e até desclassificar.

É a resistência agindo em nosso cérebro, que foi projetado para buscar o equilíbrio energético e reagir às mudanças de padrões e rotinas que vão naturalmente gerar um esforço extra.

Medo do diferente

Além dos fatores biológicos, outra razão que nos leva inconscientemente a ter medo do novo é o risco de contrariarmos normas sociais e culturais. Estudos da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA), mostram que a rejeição social ativa o córtex cingulado anterior, a mesma região responsável pela dor física.

Esse fator é tão intenso que nosso cérebro pode associar inovação a um risco de exclusão, desencadeando uma resposta de defesa. Esse medo de receber críticas e de ser “diferente” pode silenciar ideias inovadoras e limitar o crescimento coletivo.

Nesse mesmo sentido, um dos grandes demônios que temos que combater é o problema em lidar com a falta de controle.

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Quem já teve uma crise de ansiedade, já foi assaltado ou costuma transpirar durante uma turbulência aérea sabe da dificuldade e da sensação de impotência ao percebemos que não temos controle sobre as coisas.

Segundo um estudo da Universidade de Yale, publicado em Psychological Science, o senso de controle é essencial para o equilíbrio emocional. Perdê-lo significa ativar o sistema de resposta ao estresse, liberando cortisol (o hormônio do estresse) que vai aumentar nossa sensação de alerta.

Um dos grandes demônios que temos que combater é o problema em lidar com a falta de controle.

Essa resposta pode desencorajar a inovação, pois o desconforto causado pela imprevisibilidade é percebido como um risco, mesmo quando os benefícios são evidentes.

Medo de errar

Por fim, há ainda mais um motivo que nos leva a rechaçar o novo: o medo de errar. Ou, melhor dizendo, de reativar a memória do fracasso. Ainda que saibamos que aprender com os erros é fundamental, não gostamos de expor esses tropeços ao longo da vida.

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Ao contrário. Os erros costumam ficar bem guardados conosco (que não nos deixem mentir nossas neuroses e pesadelos). Estudos da Universidade de Stanford indicam que essas memórias negativas podem ser reativadas quando confrontadas com situações de mudança, aumentando o medo e a ansiedade.

Esse mecanismo de proteção nos impede de repetir comportamentos dolorosos, gerando autossabotagem em contextos de inovação, pois o cérebro relembra inconscientemente as experiências de fracasso.

Analisando todos esses gatilhos e considerando que vivemos num tempo em que a inovação pede passagem é bom lembrarmos da célebre frase de Steve Jobs: “a inovação é a capacidade de ver a mudança como uma oportunidade, não como uma ameaça.”

Se essa capacidade reside em cada um de nós, talvez identificar nossos medos mais primitivos e aprender a lidar com eles seja a chave para olhar para o futuro de uma maneira mais otimista.

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*Pedro é psiquiatra, professor do Departamento de Psiquiatria da FCMSC-SP e cofundador da Great People Mental Health. Daniela é jornalista e diretora de conteúdo e relações institucionais do Ecossistema Great People. Ambos são autores do Livro O Trabalho Protege.

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