Como lidar com as finanças (e o psicológico) sendo o primeiro a ascender na família

Há questões sociais e raciais que transformam a pessoa em um pilar familiar, especialmente no caso de pessoas pretas. Isso é um prato cheio para o desequilíbrio econômico.

Por Sofia Kercher
Atualizado em 8 jan 2025, 12h14 - Publicado em 8 jan 2025, 12h13
Pino. em cima de um retângulo de madeira no meio de outros pinos
 (Vlatko Gasparic/Getty Images)
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V

ocê conhece o Gustavo Pereira Marques. Talvez não por seu nome completo, mas pelo artístico com certeza: Djonga é considerado um dos nomes mais influentes da cena do rap aqui no Brasil.

Djonga nasceu na Favela do Índio, em Belo Horizonte, e passou sua infância e adolescência na região leste da capital mineira. Ele conta sobre sua experiência por lá no podcast Mano a Mano, de Mano Brown. No papo, os rappers conversam sobre suas origens, sobre futebol e sobre o combate ao racismo no país (vale conferir, aqui o link). Em um dos trechos, Djonga, falando sobre sua família, diz o seguinte:

“Quando os caras que tem grana explodem, eles explodem muito mais rápido, sabe por quê? Porque o dinheiro dele é só dele. Eu sempre falo isso com os moleques quando um cara explode assim. Mérito dele, trampo dele. Daora, música boa, tanto faz. Só que aquela grana que ele ganha, ele investe nele mesmo e já era. Eu, quando explodo, tenho que trazer um tanto de gente comigo.”

O rapper explica que isso faz parte de sua essência. Ele vê como obrigação colocar os seus em uma posição confortável, assim como a dele. “Quando eu vou em um restaurante com a minha família, é óbvio que eu vou querer pagar para todo mundo”, complementa. Em uma de suas músicas, chamada Deus Dará, essa ideia já vinha à tona, no trecho: “O que eu conquistar vai voltar pra minha base.”

Essas questões, de longe, não são únicas à comunidade artística. Para quem é o primeiro a ascender financeiramente na família – seja trabalhando com arte ou trabalhando de gerente em um banco –, a conquista não vem sem sua boa dose de desafios.

É isso que argumenta Mila Gaudencio, consultora financeira do will bank. A especialista explica que há questões sociais e raciais que transformam a pessoa em um pilar familiar, especialmente no caso de pessoas pretas. Isso é um prato cheio para o desequilíbrio econômico.

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De mais ou de menos

Ao ascender financeiramente, a especialista argumenta que a primeira questão que surge na cabeça do indivíduo é a do pertencimento. “Há um conflito entre você querer continuar pertencendo à sua família, à sua base, e você querer, ao mesmo tempo, viver novas experiências”, explica.

Para ela, nesse caso, existem dois caminhos comuns. Ou a pessoa se diminui e acaba não usufruindo da nova realidade a qual agora ela têm acesso (pelo fato de seus amigos e familiares não terem as mesmas oportunidades); ou ou acaba se tornando uma provedora financeira, gastando demais e até se endividando para que elas estejam junto nesses momentos.

Para encontrar o equilíbrio em meio aos extremos, a especialista indicou algumas dicas para auxiliar no processo de construção de limites financeiros. Vamos a elas.

Trazer à consciência

O primeiro passo, para Mila, é trazer esse acontecimento à consciência. Reconhecer que essa demanda financeira está acontecendo é o primeiro passo para controlá-la.

“Você precisa identificar se isso é uma demanda da sua família ou de si mesmo. Se for o primeiro caso, é importante que exista um diálogo sobre suas metas, conquistas e limites”, identifica a especialista. 

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Para ela, você tem total direito de decidir se gostaria de ajudar ou não. Caso sim, o mais importante é colocar essa ajuda no seu orçamento – com um limite de valor que você pode gastar mensalmente. “É como se você estabelecesse um fundo específico para seus familiares e amigos”, indica.

Esse fundo entra nos tantos outros que fazem parte de sua vida e de seu futuro financeiro. Acima de tudo, a especialista indica a importância de guardar uma parcela do dinheiro para o futuro – mas você pode ler mais sobre isso nesta matéria.

Entender os recortes – social e de raça

No ano passado, o will bank fez um levantamento em relação à dismorfia financeira aqui no Brasil. Ao pedir para que os entrevistados utilizassem palavras para descrever suas situações financeiras, apenas 10% das mulheres pretas e pardas usaram palavras positivas em relação a dinheiro. 

“Não é difícil entender o porquê. Basta olhar para a história do Brasil, para a abolição e para a falta de políticas públicas conseguintes”, argumenta Mila. Essa dica anda mais no campo psicológico do que financeiro: para a especialista, é necessário reconhecer essas limitações históricas e raciais para construir uma relação mais saudável com suas finanças e suas conquistas.

“É um processo muito importante de autoconhecimento e de autoconhecimento financeiro. Eu preciso entender que esses questionamentos só estão chegando para mim porque pessoas pretas, especialmente mulheres pretas, estão na base da pirâmide social”, complementa.

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Educar sua família (e você mesmo também)

Como ela apontou no primeiro tópico, a educação financeira é crucial para que a relação financeira não amargure a relação amorosa entre você e sua família. Ao mesmo tempo, não é possível ser professor sem antes ter sido aluno: por isso mesmo, Mila dá total importância à educação financeira.

É preciso entender que esses questionamentos só estão chegando porque pessoas pretas, especialmente mulheres pretas, estão na base da pirâmide social.

Tomar cuidado com cartão de crédito

Segundo o Mapa da Inadimplência do Serasa de 2023, 19% dos endividados no Brasil tinham assumido essa posição devido a empréstimos para terceiros. 

“Essa é uma questão muito complicada, porque é impossível dizer que não emprestar é a solução”, diz Mila. Em vez disso, ela explica que, quando esses empréstimos forem concedidos, é preciso que entrem dentro daquele teto pré-estabelecido.

“Pode ser que esse dinheiro nunca mais volte para a sua conta – e tudo bem. Você só precisa levar isso em consideração na hora de definir o valor, de forma que não te faça falta no presente ou futuro”, diz. 

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Você merece encontrar realização profissional

Segundo uma pesquisa feita pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), um brasileiro pobre precisaria viver nove gerações para alcançar a classe média. 

Ao atingi-la, é inevitável que a pressão recaia sobre as costas de quem ascendeu. Como bem pontua o Djonga, ainda na conversa com Mano Brown: “É tanta responsabilidade que a gente vai ficando sério, não é? Às vezes converso com meu parceiro Jacques, ele fala: ‘calma, você não precisa carregar o mundo nas costas.’ Eu digo que não, e amanhã já estou carregando de novo!”.

Segundo o Mapa da Inadimplência do Serasa de 2023, 19% dos endividados no Brasil tinham assumido essa posição devido a empréstimos para terceiros. 

Apesar disso, Gaudencio defende veementemente o direito dessas pessoas – especialmente de mulheres pretas – de se reinventarem. Ela fala por experiência própria. “Eu passei anos trabalhando em uma multinacional, atingi um cargo de gerência e estava infeliz. Isso gerou uma sobrecarga emocional que eu poderia ter evitado se eu tivesse seguido minha intuição e saído para buscar outros caminhos”, conta.

A filosofia de Mila está nas composições de Djonga também. Em sua música Hat-Trick, o rapper traz a perfeita aspa de finalização para essa matéria: “Dinheiro é bom, melhor ainda é se orgulhar de como tu conquistou ele. Aquelas coisas, né, o que se aprende no caminho, importa mais do que a chegada.”

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