Longevidade maior traz desafios para manter saúde financeira
Como garantir uma velhice digna amanhã? Singapura dá um bom exemplo: incentivo financeiro para filhos que moram perto dos pais.

A população prateada está crescendo como nunca. E essa bola já havia sido cantada em 2019, quando, pela primeira vez, segundo a ONU, o mundo contava com mais idosos do que crianças pequenas, entre zero e 4 anos. Segundo o Censo de 2022, o número de idosos aumentou quase 60% e já ultrapassa 10% da população. E eles não só estão crescendo em quantidade, como também estão vivendo mais. Hoje, o Brasil já contabiliza 14 “supercentários”, na maioria mulheres.
A minha reflexão é que essa longevidade vem carregada de dúvidas, uma delas é a aposentadoria e recursos para viver bem em um maior período. Antes, uma pessoa se aposentava aos 65, vivia até os 80 e precisava acumular dinheiro e bens para cobrir uns 15 anos sem trabalhar. Mas, e agora? Se a expectativa de vida continuar subindo, como vai ser para quem se aposenta aos 65 e vive até os 110? Como esse mesmo dinheiro vai durar 40 ou 50 anos?
Aposentadoria não garante qualidade de vida
A verdade é que nossos sistemas de previdência, já sob pressão em muitos países, não estão preparados para essa longevidade. Segundo o ranking da aposentadoria, o Brasil, atualmente, está longe de ser o melhor país para se aposentar, ocupando a 33ª posição. O país conta com um sistema com boas características, mas também apresenta riscos e deficiências. A Holanda é a melhor colocada.
Isso não é uma questão de um futuro distante. Segundo a OMS, o Brasil será a sexta nação do mundo com o maior número de idosos até 2025. E há outro desafio aí: o envelhecimento não é igual para todos. Questões raciais e sociais, por exemplo, podem impactar diretamente a velhice e a qualidade de vida, mesmo com o sistema previdenciário.
Países como o Japão, com uma das maiores expectativas de vida do mundo — 81 anos para homens e 87 para mulheres —, já enfrentam problemas nos sistemas de previdência e nas redes de apoio social. Com a crise na previdência, muitos japoneses estão trabalhando até os 70 anos e enfrentam outro desafio: o isolamento.
Uma pesquisa feita pelo Instituto Nacional de Pesquisa de População e Previdência Social do Japão aponta que 15% dos idosos que moram sozinhos falam com uma pessoa ou menos a cada quinze dias, enquanto cerca de 30% sentem que não têm “pessoas confiáveis” a quem pedir ajuda. O sentimento de solidão também tem levado a população idosa japonesa às cadeias; com o intuito de mitigar a falta de companhia, eles têm praticado pequenos furtos, pois entendem que estando encarcerados terão uma qualidade de vida melhor, com acompanhamento médico e a possibilidade de socialização. Cenários como esses só reforçam a necessidade de reinventarmos a velhice.
Exemplos a seguir
Enquanto alguns países, como o próprio Brasil, ainda não entenderam a gravidade da situação e parecem estar com os olhos fechados para uma possível mudança, Singapura parece estar anos-luz à frente, com iniciativas ativas que visam a uma boa velhice no longo prazo.
O governo de lá oferece um incentivo financeiro substancial para filhos que se mudam para perto dos pais ou vice-versa. Esse programa visa aproximar as gerações e melhorar a qualidade de vida dos idosos, especialmente aqueles com 80-90 anos, cujos filhos já têm 40 anos, são casados e têm filhos.
Morar longe pode aumentar os custos de saúde e seguro, então o governo compensa essa mudança. Além disso, essa aproximação promove a socialização, o cuidado com a saúde e melhora a vida dos idosos.
Outro exemplo interessante é o The Villages, uma comunidade exclusiva para pessoas prateadas, com milhares de atividades, hospitais e restaurantes. Lá, os idosos têm uma vida ativa, protegida e colaborativa.
O que estamos fazendo hoje para garantir uma velhice digna amanhã?
A grande pergunta é: estamos prontos para isso? Se você tivesse que parar de trabalhar hoje, com o que tem guardado, acha que conseguiria viver bem até os 110 anos? E não estamos falando só de sobreviver, mas de viver com qualidade. Inclusive, é uma realidade que já está moldando o mercado de trabalho e o sistema de saúde. O modelo, que foi pensado para um número bem menor de aposentados e uma expectativa de vida mais curta, agora precisa sustentar uma população idosa cada vez maior, vivendo mais e com mais demandas de saúde, bem-estar, lazer e entretenimento.
Pensa comigo: o que significa realmente viver bem na velhice? É ter um lugar seguro para morar, acesso a saúde de qualidade, e, claro, oportunidades para se divertir e aprender coisas novas. É preciso que a gente comece a valorizar essas questões hoje, porque o envelhecer não deve ser um peso, mas sim uma chance de aproveitar uma vida com novas possibilidades e estilo.
* Daniela Klaiman é Futurista e CEO da Future Future.