Ano sabático: Um guia para que esses 365 dias não passem à toa

Não são megaférias. Nem coisa de milionário. E sim um baita ritual de autoconhecimento: quando bem organizado, esse período pode trazer novas perspectivas acerca da sua carreira (e da sua vida).

Por Sofia Kercher
Atualizado em 17 dez 2024, 11h29 - Publicado em 2 dez 2024, 08h00
Homem descansando enquanto boia em mar aberto no verão.
 (Alberto Case/Getty Images)
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eis anos de colheita, um ano de descanso. Esse é o princípio por trás do Shemitá, sétimo ano do ciclo de agricultura judeu. 

Funciona assim: durante esse período, a terra fica em repouso total. Plantar, cultivar, colher… todas essas atividades são proibidas por lei. Qualquer fruta, vegetal ou erva que crescer por conta própria, sem nenhuma vigilância, pode ser colhida por qualquer pessoa. Todas as dívidas do povo judeu que existam no período são perdoadas. 

As escrituras prometem colheitas abundantes em retorno desse descanso – que é positivo não somente à natureza, mas também aos agricultores. Não à toa, a tradução literal de Shemitá, do hebraico para o português, é “libertação.” Libertação da terra, libertação de quem a cultiva. Naquele ano, tudo é possível para ambos.

De lá pra cá

O Shemitá é conhecido por outro nome, um que você deve ter ouvido centenas de vezes: Sabático. Na definição atual do dicionário, significa “uma interrupção temporária de determinada função ou atividade regular”. Em suma, 12 meses fazendo qualquer outra coisa que não seu trampo atual. Um ano, literalmente, com cara de sábado. 

A prática não ficou limitada à agricultura. No século 19, a Universidade de Harvard implementou essa prática aos seus professores, difundindo-a no meio acadêmico. Mesmo esquema: a cada seis anos de aula dada, o docente ganha um ano de folga. Inúmeras universidades operam dessa forma hoje.

Do campo ao campus e ao corporativo: os trabalhadores de escritórios mundo afora absorveram a prática para si. Mas não exatamente seguindo um cronograma 6×1, nem os 12 meses exatos. Nesse universo, o termo é usado para definir uma pausa na rota originária da sua carreira. Quanto tempo essa pausa dura e quando ela acontece, fica a gosto do freguês.

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Segundo a plataforma de soluções de RH Gusto, a porcentagem de pessoas que tiraram um sabático aumentou de 3,3% em janeiro de 2019 para 6,7% em janeiro de 2024. 

Note: não é a maior das porcentagens. Mas dobrou nessa janela de tempo. Cortesia de um vírus que apareceu pelo caminho – que virou do avesso nossa perspectiva acerca do espaço que o trabalho ocupa nas nossas vidas. E, naturalmente, dos crescentes índices de estresse e exaustão relacionados às atividades profissionais. Só no Brasil, estima-se que 30% dos trabalhadores sofram da síndrome do burnout (destrinchada na capa da Você S/A de março de 2022, que você pode ler aqui). 

Com a alternativa ganhando força, mas ainda operando no espectro do tabu corporativo (falaremos disso mais para frente), fica difícil saber quando levar a possibilidade a sério. Nosso primeiro tópico. 

Que modelo serve para você?

Em sua pesquisa sobre o poder transformador dos sabáticos, publicada no finalzinho de 2022, os estudiosos Kira Schabram, Matt Bloom and DJ DiDonna – da Universidade de Washington, Universidade de Notre Dame e de Harvard, respectivamente – entrevistaram 50 sabatiqueiros, e encontraram três tipos de pausa. São elas: Work Holidays (férias com trabalho), Free Dives (mergulhos livres) e Quests (buscas). 

O primeiro grupo tirou um tempo do trabalho para focar em projetos paralelos. Vulgo: startups e organizações sem fins lucrativos. Nesse tempo, eles alternam entre períodos superintensos de trabalho e pausas dedicadas ao descanso e à reconstrução de relacionamentos. A maior parte deles retornou ao antigo trampo – com senso de independência e confiança renovados, segundo os pesquisadores.

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A porcentagem de pessoas que tiraram um sabático aumentou de 3,3% em janeiro de 2019 para 6,7% em janeiro de 2024.

O segundo grupo tinha a pulguinha do mochilão atrás da orelha. Esse pessoal teve mais emoção do que razão. Leia-se: profissionais que largaram o emprego na sexta-feira e embarcaram na segunda para o outro lado do globo. Como as viagens eram mais intensas que o esperado, os sabatiqueiros revezavam as aventuras com momentos de descanso total. 

Todos relataram uma perspectiva completamente nova acerca do trabalho: apesar da maioria ter retornado à profissão pré-sabática, eles retornaram para posições, projetos ou setores diferentes. Cortesia de uma reflexão acerca do vício em sucesso e da preocupação com imagem profissional, esquecida em algum bagageiro leste asiático afora.

Por fim, o terceiro grupo: aqueles que saíram do trabalho por exaustão. O sabático se tornou menos uma escolha, e mais o recurso final: trilhar o caminho profissional que estavam, naquela intensidade, tornou-se insustentável. 

O começo é voltado a descansar. Depois, alguns se aventuraram a viajar, adentrar novos projetos, repensar suas carreiras. Isso raramente os levava a retornar ao trabalho que antes exerciam. 

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Todos relataram uma perspectiva completamente nova acerca do trabalho.

Viajar pelo mundo é para todo mundo? De forma alguma. Abrir uma startup? Muito menos. Mas o sabático não precisa estar injetado de produtividade, trens à Tailândia e ambições à lá Shark Tank para valer a pena. Acima de tudo, ele traz uma oportunidade de recalcular a rota, especialmente para quem sente que há uma parte que falta no trabalho. Também é uma forma de descanso duradouro e necessário a funcionários que, infelizmente, chegaram no limite. 

Respondendo, então, à principal questão: sim, qualquer um pode tirá-lo. O sol – e a sombra – são para todos. O que muda é o melhor momento e a melhor forma que ele pode ser tirado. Para ambos, não há receita de bolo. 

Apesar disso, existe um conjunto de boas práticas, financeiras e psicológicas, que pode te ajudar a planejar o seu, à sua maneira. Vamos a elas.

Quanto custa

O primeiro passo – e o mais importante antes, durante e depois do seu sabático – é grana. Coloque na sua cabeça: não existe sabático bom sem organização financeira. A partir do momento em que você decide tirá-lo e define uma data para que aconteça, as planilhas se tornarão suas melhores amigas. Acostume-se com isso.

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Para Eduardo Freitas, CFO da Contabilizei, as primeiras despesas a serem consideradas são as fixas. “Aluguel, parcelas, empréstimos, dívidas…tudo isso precisa ser levado em consideração. São boletos que continuarão chegando, independentemente de você estar em sabático ou não”, afirma.

Levando isso em conta, está na hora de adicionar os gastos extras que vão acontecer durante seu sabático. Pretende viajar? Está na hora de pesquisar preços de passagens, hospedagem, alimentação e passeios. Quer fazer um curso, aprender uma nova língua, começar a empreender? Defina esses valores e adicione na conta final. 

Por fim, os últimos gastos são aqueles que, atualmente, a empresa assume por você. Plano de saúde, plano odontológico, seguro de vida, vale refeição e alimentação… especialmente se há dependentes dentro dessa conta, será necessário estimar quais serviços essenciais precisarão sair do seu bolso ao longo do sabático.

Depois de contabilizado aquilo que não pode ser removido, está na hora de remover o que pode ser cortado. Isso vale para os serviços de streaming, aulas semanais de pilates, cinema de fim de semana… cortes esses que, provavelmente, se estenderão para seu período off.  Aqui, vale a mentalidade no pain, no gain. São sacrifícios que valerão a pena ao final da jornada. 

Some o que pode ser economizado com o que você já tem de reserva financeira e… bingo: aí está o valor que você precisa guardar. Isso te dá uma estimativa de quanto tempo precisará para conseguir a grana – e quanto tempo terá para planejar as atividades do seu sabático. 

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Eduardo monta uma conta hipotética: digamos que você ganha R$ 5 mil todo mês, e já tenha R$ 10 mil guardados. Considerando que você deve gastar metade do que ganha atualmente por mês, para seis meses OOO (out of office), será necessário economizar, no mínimo, R$ 15 mil. Faltam R$ 5 mil nesse caso, portanto. 

Some o que pode ser economizado com o que você já tem de reserva financeira e… bingo: aí está o valor que você precisa guardar

Economizando R$ 500 por mês, o período sabático poderia rolar em menos de um aninho. Não há segredo, herança ou mega-sena: é a boa e velha matemática. “Será necessário ter uma disciplina financeira enorme – metas diárias de gasto. Mas você precisa entender esse momento como um projeto. De reencontro, reconexão, até de detox… isso faz com que valha a pena”, adiciona.

Li e Gui por aí

É isso que fez Livia Marcka (38) e Guilherme Balensifer (38). Durante dois anos – 2015 a 2017 – o casal economizou para 20 meses de mochilão. “As decisões dos anos seguintes foram pautadas nesse sonho de conhecer o mundo”, afirma Guilherme. 

O casal explica que o respeito aos budgets e escolhas econômicas permitiram com que eles vivessem com cerca de R$ 4 mil cada, por mês, ao longo desses 20 meses. Guilherme é craque nos infográficos – e contabilizou que, durante o primeiro ano de viagens, a maior parte da grana foi gasta em hotéis e transporte (24% para cada, totalizando 48%), seguido de alimentação (19%) e lazer (14%). Os outros 19% foram destinados a compras, vistos e mercado (como produtos de higiene pessoal, remédios e afins). 

A história de Livia e Guilherme também serve para tranquilizar quem está nervoso com outro momento do sabático: a volta dele. Falaremos dela a seguir.

Escritório: O Retorno

Em suas pesquisas, o professor de Harvard DJ DiDonna – também responsável pelo The Sabbatical Project, site que oferece dicas, relatos e até um quiz para ajudar você a tomar essa decisão – calculou que é preciso seis semanas, no mínimo, para desestressar de uma rotina de trabalho. 

Para reconectar, contudo, talvez seja necessário um pouquinho mais de tempo. Eduardo, da Contabilizei, defende que está na hora de começar a mexer seu esqueleto corporativo ao menos dois meses antes do fim do seu ano sabático. Isso dá cerca de 16% do tempo. Aplique a regra de três à sua realidade temporal e marque na sua agenda quando voltar ao LinkedIn.

Se você pretende retornar à sua área de trabalho – ou, em caso de licença sabática, à sua empresa –, é importante retomar o contato com antigos colegas de trabalho, mentores, funcionários de sua equipe. Lembre-se: as coisas não estarão do mesmo jeito que estavam quando você as deixou, nem você será o mesmo. É importante realinhar essas expectativas antes do retorno do jedi. 

Se pretende fazer uma mudança, está na hora de traçar um plano profissional para que isso aconteça. Aqui, além desta reportagem, vale a leitura do dossiê da Você S/A sobre transição de carreira – que você pode ler aqui.

Livia voltou ao mesmo time, na mesma empresa. Decisão tomada dois meses antes de ele retornar do mochilão – sua antiga chefe entrou em contato e ela, já empolgada para voltar à rotina de escritório, topou imediatamente. Guilherme, que antes trabalhava na área de inteligência de dados, resolveu seguir para a consultoria – e arranjou um emprego dois meses após ter retornado do sabático. Com o caixa ainda positivo, reiteram.

Você (e sua carreira) vão ficar bem

Parece chover no molhado quando escrevemos que descanso é importante. Mas, se esse fato já tivesse sido martelado o suficiente na cabecinha corporativa, os anos sabáticos talvez teriam uma reputação muito melhor do que têm hoje.

Primeiro, é importante deixar claro: um ano sabático não é uma pausa na sua carreira. Não existe sua carreira sem você – se você está se desenvolvendo, crescendo, evoluindo, sua carreira também está. Pode vir de um curso, uma viagem, de um mês que você tirou para passar com a sua avó… em tudo há potencial de aprendizado. Beba dessa fonte sem culpa.

Isso serve para desmistificar outra retórica cruel, de que é preguiçoso quem dá esse tempo para si. Como calculou DiDonna: se você tira seis meses de sabático a cada dez anos, isso corresponde a meros 5% da sua vida de trabalho. Coisa que Livia e Guilherme seguiram à risca: no dia do nosso papo, ambos tinham pedido as contas novamente, e estavam no México rumo ao segundo sabático de suas vidas. “Com absolutamente nenhum arrependimento”, defende Livia. 

Acima de tudo, é importante lembrar que o sentido do nosso trabalho – e da nossa vida – é a gente que cria. Somos senhores e senhoras de nosso próprio destino. Se está na hora de repensá-lo, ignore o ruído e vá fundo. O mundo vai te esperar.

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*Erramos: na reportagem da revista, escrevemos que Livia e Guilherme viviam com cerca de R$ 3 mil cada. Isso só é verdade para o leste asiático: na totalidade da viagem, são R$ 4 mil.

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